14 dezembro 2004

Alguém.

Olhas para o céu e pensas se alguém também o faz nesse exacto momento, se alguém sente o que tu sentes, se alguém acredita nos mesmos detalhes que te fazem sorrir, se alguém se rege pelos mesmos credos, se o vento faz alguém dançar, se a chuva cobre as lágrimas de alguém, se esse raio de sol aquece outra alma, se...
Será que alguém pensa agora como tu?
E há um aroma que te lembra de viver, e há um som que se chama silêncio, e há uma mão que também é a tua mão e a mão de alguém, ao mesmo tempo. Um coração que te completa. Uma lua e um sol lá em cima que brilham para mais que um alguém.
Receita para hoje e sempre:
Pó de estrelas, Sorrisos e UM Alguém.

09 dezembro 2004

Olho para dentro de mim,
sinto-me
vazia.

06 dezembro 2004

(L)

Pego no telemóvel e aviso-te que cheguei. A mensagem é curta e objectiva: “estou no Couraça, vens cá ter?”. O fumo dos cigarros baralham os meus pensamentos e, em silêncio, estremeço quando penso na possibilidade de rever os TEUS olhos azuis rasgados e o contraste das mexas de cabelo escuro que teimam pôr-se à frente deles. A conversa desenrola-se e eu estou longe. No entanto, e como sempre, sorrio.
“Já lhe mandaste a mensagem?”
“Sim”, respondo convicta. Mas… qual foi a pergunta mesmo?

QUE RAIVA. Tens este efeito em mim (D.): mesmo longe consegues ocupar-te da minha mente e deixar-me assim (D.), estupidamente distante e ansiosa (D.).

O tempo passa e continuo a não ver qualquer vestígio de ti, a não ser cá dentro, do lado da saudade, do carinho e da ternura. Ainda me lembro da primeira vez que nos cruzámos: nesse dia eu ainda estava desperta para o que me rodeava. Passeava-me, qual borboleta, pela sala do bar quando tu entraste para felicitar um amigo comum. Os meus sentidos dispararam quando te debruçaste sobre mim para cumprimentá-lo. Cheiravas bem.

“Marta! Oh Marta! Não achas?!”
“Hum?.. Sim, sim! Claro!” Mais uma vez, e mesmo longíssimo dali, a conversa desenrolava-se. Falavam agora de marcas de telemóveis: de como os nokia ganhavam aos pontos os siemens – os piores do mercado porque se desligam, apagam, congelam… enfim.
A mesa redonda deixava espaço suficiente para que pudéssemos tomar café calmamente, sem que os braços se atropelassem. A verdade é que, se estivesses ali, até nem me importava que a mesa fosse apertada, para de alguma forma, sentir o teu corpo contra o meu. Mas não estavas. Não estavas e eu também não. Culpa tua.

Subitamente faltou a luz, “deve ter sido um qualquer problema com o quadro…” concluímos. E ficámos ali, ás escuras, a brincar com os isqueiros e com as luzes dos telemóveis. E o meu pensamento dispersou de novo: recordaste quando foste ter ao DD só para me ver? Combinaste tudo com eles e apareceste. Eu fiquei tão feliz e nervosa que durante toda a noite só te dirigi um mero olá, e tu, igualmente nérveo, balançavas-te para a frente e para trás com a mão no bolso das calças, sorrindo e olhando-me de soslaio. Adoro quando estás inquieto. Ficas inseguro e doce como ninguém. Eu não – fico trapalhona: à saída deixei cair todas as moedas da carteira e enfiei o pé esquerdo numa poça de água. Fiquei tão envergonhada que nem me despedi de ti, meti-me no carro e só quando cheguei a casa te mandei uma mensagem a pedir desculpa.

“Pagas os cafés?”
“Está bem, mas depois vocês pagam as minis, ok?”
Pelos vistos estávamos de saída. E tu, nada. Estava tão triste que nem me apetecia seguir noite dentro com eles, mas fui. Abstrai-me de ti, por momentos, e fui.

Passou o domingo, e o meu regresso a Lisboa estava marcado para poucas horas mais tarde. Estava super cansada, mas nem dormi na viagem.

Mania que vocês, Homens, têm de ser tão desprendidos.

[adorei o telefonema D., prometes que ligas mais vezes?]

29 novembro 2004

Tantas vezes quis dizer amo-te e não disse.
Tantas vezes quis ouvir da tua boca que o amor não acaba como acabam os barcos no infinito, quis abraçar-te num pranto e só deixei cair os braços no desespero de uma conformação por algo que eu sabia efémero, mesmo quando me davas a mão e dizias amo-te, ou quando me abraçavas e me prometias o amanhã.
Quantas vezes quis pedir-te para não deixarmos o tempo secar o orvalho das manhãs, nem as ondas apagarem as nossas pegadas.
Tantas vezes perguntei o que é o amor? e ninguém me soube responder... E afinal o amor é só isto: uma alma assaltada e um coração roubado.
E podia muito bem ter dito já que me assaltaste a alma, toma bem conta do meu coração.

22 novembro 2004

Gota a Gota.

Folha a folha vai
O Outono a cair,
Letra a letra escrevo
O que hás de ouvir.

Longe de ti
Só posso inventar,
Olhos nas nuvens
Sempre a mudar,
Sentindo o vento
Chuva no ar,
No ar ...

Gota a gota cai
A chuva no mar,
Passo a passo sei
Onde quero estar.

Olhos nos olhos
A mão na mão,
Sentindo o vento
Sentindo o chão,
Se gosto de ti
Porque não?


Gota a Gota - Xutos e Pontapés
[longe mas sempre p e r t o, D.
Será?]

21 novembro 2004

Eu & Tu = Nós?!

O filme que passa no televisor faz-me sentir cada vez mais o cansaço apoderar-se de mim. Enrolada numa manta de quadrados vou aquecendo o meu corpo por si e vou adormecendo junto à almofada e junto ao teu braço que me acompanha toda a parte superior das costas. O sofá é demasiado pequeno para os dois, volta e meia está um quase a cair no chão, é nessa altura que o outro estica o braço e entre sorrisos e quase quedas nos beijamos até cair.
No chão rebolamos como crianças, tens o mau hábito de me fazeres cócegas e eu tenho o péssimo hábito de não conseguir parar de rir. Fazemos do chão frio um areal, e da noite um momento único e especial para ambos.
Normalmente levas-me para a cama entre braços, com cuidado para que não acorde, com leveza para que não me desmanche, sempre com a preocupação de não me partires as asas transparentes e invisíveis de Borboleta em que acreditas.
Hoje não há troca selvagem de beijos, nem fazer amor, há uma troca de olhares e um sorriso ao nosso cobertor de ternura. Há um penetrar nesse imenso oceano azul onde me perco e há um entrelaçar de dedos em algumas madeixas escuras de cabelo, em movimentos desconexos e desconcentrados.
Entre carinhos e carícias soltam-se palavras e frases e nasce uma conversa, daquelas conversas que nos ocupam horas e horas e que nos levam por entre reviravoltas e consentimentos até de madrugada, onde adormecemos exaustos.
Falamos sobre Amor mas não somos românticos. Jantamos normalmente com velas e a luz da sala e do quarto é ténue, ligamos a pormenores como o embater dos raios de Sol no cortinado amarelo mas não festejamos o dia dos namorados, nem os meses de namoro, não achamos que as datas têm de ser comemoradas apenas porque sim e ainda bem. No Inverno gostamos de caminhar pelo parque e de dar pontapés nas folhas caídas, gostamos de levar o cão a passear embora vá normalmente sozinha. Gostas de acordar tarde assim como eu gosto de me deitar tarde. Quem disse que quem ama tem ciúmes? Eu não tenho ciúmes. Tu não tens ciúmes. E é desta premissa que nasce toda uma relação.
Gosto de sair contigo porque me divirto mais. E tu também. Temos muitas amizades em comum. Mas ás vezes saímos separados: não gosto de te arrastar e de te fazer sentir deslocado tal como também não gosto que tu mo faças, por isso é com leveza que aceitamos as nossas diferenças de gostos e de opiniões. Quando olham para ti, te pedem um número, te oferecem um copo não me chateio, nem gelo por dentro, nem tenho medo sequer. Confio em ti e acredito em mim. Não temos a petulância de achar que somos insubstituíveis, ninguém é. Se um dia um de nós partir, alguém chegará e a Vida voltará a ser bonita e laranja novamente. Não há que ter medo, não há que evitar, não há que esgotar o Universo de Possibilidades que nos rodeia. Não nos fechamos nem nos poupamos a novas descobertas. Acreditamos sempre que é possível algo melhor.
Nunca nos chateamos. Nunca te ouvi gritar. E quando me zango ouves-me com respeito até ao fim. És o meu contar até 10. No teu silêncio acalmo-me sempre e fico exausta depois de ter dito tudo o que queria dizer sem dares luta. Geralmente dás-me razão o que me faz sorrir por dentro. A isso ainda juntas umas palavras de admiração pela minha capacidade argumentativa o que me faz derreter de orgulho. Gostamos de andar de mãos dadas, detestamos alianças, eu gosto de andar no Body Pump e tu gostas de bodyboard.
No Verão passamos muito tempo na praia, jogo futebol com eles, lembras-te das bolhas que fiz nos pés no ano passado? Foste comigo comprar as minhas sapatilhas e em vez de me criticares pelo meu sonho de consumo fútil e estúpido sorriste-me e disseste que era a 'miúda mais gira do Mundo'. Não falamos sobre nós com ninguém. Ambos somos poços de segredos onde os fiéis amigos depositam as suas verdades. Eu não sei que segredos escondes. Tu também não sabes dos meus. Não somos um. Somos dois. Não somos perfeitos. Somos imperfeitos demais. Bebes cafés e fumas. Eu só bebo cafés. Gostas de me ver de botas altas e eu gosto de andar de tennis – ás vezes faço-te a vontade. Não gostas de dar nas vistas e eu também não. Tens olhos azuis e és moreno, eu sou morena de olhos escuros. Não gosto de marisco e tu gostas. Não acreditamos na eternidade mas pensamos no Futuro.
O Amor para mim é isto.
O Amor para ti é isto.
Fazemos sentido juntos mas somos pessoas sós.
Respeitamo-nos.
Sabes o que somos?
Somos acima de tudo amigos que um dia quiseram experimentar o Amor...

[A beleza da escrita está em sermos nós próprios mesmo quando não o somos verdadeiramente; mas isso ninguém precisa de saber.]

20 novembro 2004

Gostos.

À medida que amadurecemos os nossos gostos mudam:

As meninas gostam de bonecas pintadas & os meninos de soldados.


Quando c r e s c E M,


algumas mulheres gostam de soldados


e alguns homens de bonecas pintadas.

19 novembro 2004

note :

for those
who never cared

I won't look back.

10 novembro 2004


Yes. Indeed. Once upon a time i was a respected & married woman.
Things change.

07 novembro 2004

Fabrica de sonhos

Um dia, quando finalmente crescer e me vir confrontada com a triste realidade de que os príncipes não existem e o Pai Natal se resume a um estratégico golpe de publicidade, vou criar a minha FABRICA DE SONHOS. Vou, passo a passo, construí-los e moldá-los. Dar-lhes magia, música e encanto. Vou colori-los de todas as cores e vou voar. Vou sossegar o meu coração junto de estrelas mágicas, nuvens voadoras e circos da lua e do sol. Vou fazer o meu tempo e preenchê-lo de cheiros, sabores, momentos e instantes. Vou semear sorrisos, desenhar afectos e colher abraços. Vou denunciar a felicidade e prender o amor.

Vou.

Vou e não volto, um dia.

03 novembro 2004

Primeiros passos

Num pulo, coloco-me fora da cama, abro a janela e ponho os pés no gélido chão da varanda. A rua está adormecida sob os reflexos dourados que trespassam o eucalipto, um leve véu de nívea neblina paira sobre os campos e algumas estrelas persistem num céu de uma incontável paleta de tons de azul, rosa e amarelo. Dos outros prédios obtenho como resposta um amontoado de persianas brancas corridas até baixo. Não passam de uma cambada de energúmenos, encerrados nas suas fúnebres gaiolas, reclusos da sua auto-imposta deplorável rotina diária, desprezando os momentos mais belos do dia, adorando o berrante sol.
Numa pachorrenta mandriice, descerro lentamente os olhos e fixo-os no tecto cor de madrugada. Os primeiros raios da aurora penetram pelas cortinas, fazem ricochete no espelho e provocam engraçados jogos de luz e cor no crepúsculo do quarto. Observo a madrugada dissolvendo-se, escorrendo pelas paredes alvas, escondendo-se debaixo da cama. Sorrio, estou na fase mais doce do dia, na ténue fronteira entre a ficção e a realidade. A fantasia envolve todos os objectos e acontecimentos, tornando mágico o matinal chilrear dos pássaros, o sonoro baloiçar do enorme eucalipto, o gotejar da velha fonte. Fecho os punhos, aperto-os contra a nuca e, num demorado bocejo, deixo o sono fugir de mão dada com o sonho.

02 novembro 2004


Desculpe, era 1 kg de tempo por favor. Posted by Hello

01 novembro 2004

Durante a noite.

Percorro a casa, morna e escura; encaminho os pés desnudos pela alcatifa mole; procuro a claridade. Na janela encontro luzes de uma qualquer cidade - não, o brilho das estrelas não é o mesmo, e o cheiro da madrugada afasta-se das minhas memórias. Coimbra, penso, tem um brilho incomparável, e todas as cores contrastam com a minha alma. O cheiro, as gentes, as ruas apertadas, a confusão dos dias, o rio, o coração a viajar com as mãos no volante. Coimbra - Coimbra - na "minha" cidade tudo brilha e tudo é sempre sol, e quando a noite cai mil sorrisos inundam as ruas onde sempre mergulho. Aqui, quase sempre é noite e mal aprendi a nadar. Aqui, apetece-me riscar os tectos e escrever o teu nome em todos os cantos. Coimbra - deixa chover - amo cada das pedras das tuas calçadas, e sonho os meus pés desnudos sobre elas. Lembro-me do Mondego, dos meus olhos soltos na água, das mãos dadas aos amigos, da casa, da família, do coração a brilhar contigo.
Coimbra, só Coimbra.
Coimbra e todas as palavras não chegam para dizer que só a ti pertenço.

30 outubro 2004

Amanhecer

E eis que surge aquele momento, aquele instante tão ténue como um fio esmagado entre o indicador e o polegar, em que as luzes da rua adormecem e se apagam e o horizonte se estende num longo rosa velho, leve, breve. Todas as manhãs o sorvo com aquela sofreguidão infantil que tão bem me caracteriza e, quando uma gorda gema laranja rasga o contorno carregado dos montes e empurra a doçura púrpura do crepúsculo para debaixo da cama, eu retorno ao recortado da noite anterior, cerro os olhos, afogo-me na alvura negra dos lençóis e estico-me. Estico-me, empurro infinitamente a ponta dos pés na procura de fundo da cama que não existe; sinto-me grande, enorme, gigante. Sinto-me maior do que eu mesma, maior do que o mundo, maior do que todas as coisas com as quais me possa comparar. Apenas eu, questionando-me se o fundo da cama é mais frio ou mais quente, contando cada segundo que falta até adormecer. Finalmente.

26 outubro 2004


i've got a BODY & a BRAIN.

11 outubro 2004

A minha vida é um livro de colorir.

01 outubro 2004


Não sei porquê há qualquer coisa, há qualquer coisa hoje...

30 setembro 2004

Princesa

O meu quarto é o meu Mundo. Talvez por isso goste tanto, após um estonteante dia de árduo trabalho, chegar a casa e fechar-me nesse espaço. Não tenho nada a esconder, apenas não gosto de o partilhar.

É o meu Mundo de sonhos, outrora repleto de brinquedos e de uma ingenuidade cor-de-rosa que não sei para onde foi. Ainda me lembro de quando era miúda e chegava da escola, subia as escadas num abrir e fechar de olhos, debruçava-me sob a janela, e ficava ali com as mão a segurarem-me a cara e a contemplar a vista privilegiada sob Lisboa e o Rio Tejo.

E sonhava.

Hoje, já com 24 anos, sinto que ainda tenho essa mesma criança dentro de mim, embora o tempo, a vida e as circunstâncias me tenham ensinado a encarar o que me rodeia com os pés bem assentes na terra. Mas isso não importa, porque sei que quando chego ao meu refúgio, por mais desgrenhada, suja, triste ou cansada que venha, ele consegue, independentemente de tudo, transportar-me por contos, lendas e histórias de encantar nunca antes viajadas, onde eu sou a Princesa e a minha cama a núvem-mágica que me guia.

E sorrio.

E o sorriso é o mesmo que quando tinha seis anos e na aldeia dos meus Pais chamava Avó a todas as velhinhas que me ofereciam doces.

Cresci.

Mas o olhar de menina prevalece e com ele também a vontade desmedida de ser feliz. Por isso mesmo, ainda hoje, me sento na núvem-mágica, cruzo as pernas “à chinês” e respiro o cheiro de memórias e lembranças que tanto me dizem mas que também há muito já lá vão…

Já é tarde, o sonho já é sono e eu vou então dormir para o tempo passar depressa, o amanhã chegar rápido e eu voltar a ser Princesa no meu Reino… outra e outra e outra vez.

28 setembro 2004

"Substitui-te sempre a ti-próprio. Tu não és bastante para ti. Sê sempre imprevenido por ti-próprio. Acontece-te perante ti-próprio. Que as tuas sensações sejam meros acasos, aventuras que te acontecem. Deves ser um universo sem leis para poderes ser superior."

Fernando Pessoa.

27 setembro 2004

Creme NIVEA

Eu gosto do Verão, a sério que gosto. Uma pessoa morre de calor no trânsito, anda com sono e cansada, toda a gente está sempre a ir ou a chegar de férias, anda tudo com boa cara, vai-se muito à praia, as roupas diminuem consideravelmente e sai-se bem mais à noite…já para não falar no bronzeado…! O pior é o resto. É que o calor torra os miolos, refoga os neurónios e frita a lucidez. Com o calor vem a estupidez natural que durante o Inverno viveu hibernada na cabeça da rapaziada, e que tem a ver com o interesse carnívoro pela “raparigada”.

Eu explico: imaginem a Luísa, a vossa vizinha do quinto direito, a cruzar-se convosco à entrada do prédio num fim de tarde de Inverno: ela vem branca, desgrenhada, com o rímel esborratado, uma gabardina pingona, um guarda-chuva que lhe molha as suas botas ao ponto de as transformar numas galochas, e uma camisola de lã, quase pelo joelhos, que a transforma num saco de batatas mal cheio. São sete da tarde, mas já é noite, está um frio de rachar e só apetece chegar a casa, pegar numa mantinha e vegetar em frente à televisão. - Adeus Luísa, até ao qualquer dia. E pronto, não se pensa mais no assunto.

Mas agora é Verão e vocês cruzam-se com a mesma Luísa, numa tarde encalorada de Julho, à entrada do prédio. A Luísa entra de shorts, sandálias de tacão, uma T-shirt que lhe marca o peito e a cintura, o cabelo mais claro, a pele luminosa do bronze e pior do que tudo isto, com um bocadinho de areia no pescoço e nos tornozelos que lhe dá um toque divinal. Se vocês tiverem mesmo com azar – ou com sorte – atrás da Luísa aparecem, quais cogumelos, duas amigas tão ou mais giras do que ela, com características semelhantes. E o que é que vocês dizem? - Olá Luísa, não queres passar lá por casa para beber qualquer coisa? Aproveito e dou-te o CD que me emprestas-te. E enquanto esperam a resposta, torcem os dedos para que ela não se lembre de perguntar qual é o CD, porque nem mesmo vocês sabem.

As Luísas são uma praga sazonal. Elas estão em toda a parte, saltam-nos para debaixo dos pneus nas passadeiras, atravessam-se-nos nas cadeiras do cinema, cruzam-se nas escadas dos centros comerciais, sentam-se ao nosso lado nos restaurantes e a rapaziada fica desorientada. E o pior é que o mundo está apinhado de Luísas de todos os tamanhos e nacionalidades, o que deixa a rapaziada ainda mais confusa. Apetece-lhes logo praticar o inglês e outras línguas, mostrar às Luísas Turistas o charme da Torre de Belém e a beleza da serra de Sintra. Comprar-lhe queijadas e, quem sabe, uma toalha de Viana que fica lindamente na mesa de aglomerado que ela tem lá no apartamento dela nos arredores de Amsterdão. As Luísas são seres estupidamente felizes que conseguem estar sempre a rir e mostrar pouca inteligência. Adoram dançar até às tantas e metem-se nos copos com grande facilidade. Fumam que nem uma chaminé e estão sempre a perder isqueiros, o que faz com que se aproximem da rapaziada para pedir lume com rapidez e garbo.

As Luísas são uma praga para nós, raparigas absolutamente normais que nem sequer olhamos para os Luíses se o nosso coração está ocupado, porque os homens, ao contrário das mulheres, gerem os afectos de forma, digamos assim, mais democrática. Ou seja, a presença factual e puramente acidental de uma Luísa pode trazer-lhe prazer, estímulo e alguma cor à existência sem detrimento da condição mais ou menos vitalícia da namorada. O que fazer?

Eu tenho uma teoria: O Creme Nívea não é o creme mais antigo do mundo? Não é um clássico? E não continua na moda? Então esta é a solução: há que ter uma postura Creme Nívea, encolher os ombros à concorrência e pensar, eu já cá estava, antes e depois das modas, eu sou o Creme Nívea da vida dele e hei-de continuar a ser.

Espalhem-no bem e bom resto de férias.

08 setembro 2004

Se a tua mão surgir

A noite
d i s s i p a – m e.

E os meus excessos perdem-se.

Quero essa loucura


entornada

no cume do silêncio .