27 novembro 2005

Permanência
Pediu um café, cruzou as pernas ajeitando com um toque de timidez a saia e de seguida tirou da mala um cigarro. Acendeu em câmara lenta a chama de uma vida. O café chegou. O empregado balbuciou qualquer palavreado de que não obteve resposta. E ela continuou ali saboreando a amarguês, não só da vida mas também do cigarro, que ficou esquecido no cinzeiro de prata. Mexeu o café ora para esquerda, ora para a direita. Passou a colher pelos lábios (agora) sem cor e voltou a colocar perto da chávena. Parecia ter paralisado o olhar em direcção ao infinito. Gente saiu, gente entrou, o café arrefeceu, o cigarro ficou reduzido a cinzas e o seu olhar cedeu uma lágrima.
Apenas uma.

19 novembro 2005

Aproximamo-nos da tua casa. Páro. Tu puxas-me de imediato, com as mãos a fervilhar de desejo: "anda(!)"; e continuamos então a caminhar, colados um ao outro, por entre arrepios e suores lânguidos.
A noite foi longa. Bem longa. Alimentámo-nos apenas dos nossos risos e beijos no meio da multidão e da fumaça. Sinto-me sem forças.
Deixo-me cair na tua cama: tu usas o meu corpo como se fosse o teu e eu deixo-me levar por essa tua loucura inata. Acordo forçosamente com a luz do sol. Espreguiço-me. Olho em volta e encontro-te a meu lado. Não acredito que aquele cenário seja verdadeiro. Fecho os olhos e volto a abri-los: tu continuas lá. Levanto-me apressadamente e percorro o quarto em busca da minha roupa, espalhada, perdida. Visto-me tão rápido que a camisola fica do avesso. Não há tempo para mudar.
Procuro a saída da tua casa. Insistentemente. Desisto. Encosto-me a uma das paredes brancas da tua sala, ainda por mobilar, e len-ta-men-te escorrego até me sentar no chão frio. Baixo a cabeça, passo os dedos pelo cabelo e questiono-me sobre o porquê de fugir de ti.
Sorrio timidamente e, enquanto dispo a roupa, volto para o quarto, onde ainda dormes. Nua, deito-me cuidadosamente ao teu lado, percorro a curva do teu peito e sinto o calor da tua respiração. Abraço-te com força para que não consiga fugir mais nenhuma vez, pelo menos... por instantes.
- "Onde ias borboleta?"
- Voar, para longe. Voar.
["eu sou de ninguém, eu sou de todo o Mundo e todo o Mundo é meu também."]

14 novembro 2005

P'ra quê chorar,
P'ra quê sofrer,
Se há sempre um novo amor
Em cada novo amanhecer?

De nós,
Resta apenas a ternura,
Resta a cúmplicidade no silêncio.

Vira essa folha e se esquece de mim.

Porque eu
Já esqueci de você.
Vinicius de Moraes

O poeta apaixonado, O homem dos afectos, O branco mais negro do Brasil.

[ "Vinicius de Moraes, Quem vai pagar o enterro e as flores se eu morrer de amores?" um filme-biográfico, no mínimo, interessante e MELícioso.]

.nunca uns versos fizeram tanto sentido.

08 novembro 2005

- (…) tenho tantas saudades tuas… caramba! Será que não vês?! Tenho saudades da tua ingenuidade de menina-mulher já cheia de saber, do teu sorriso tímido quando diante de alguém que não conheces, da tua vontade de ver os outros felizes. Tenho saudades da tua doçura e do teu olhar meigo por baixo das mexas de cabelo escuro. Tenho saudades da tua teimosia e da tua racionalidade, tantas e tantas vezes traída pelo coração. Tenho saudades dos teus beijos carregados de ternura, de quando me agarravas com força e eu, secretamente, sabia que era com medo de me perderes. Tenho saudades da tua insegurança e do teu empurrar os óculos, qual intelectual estereotipada, para o alto do nariz. Tenho saudades do teu franzir de sobrancelha quando não aprovas algo e da tua serenidade na praia a olhar o mar. Tenho saudades Marta… tenho tantas saudades quando te punhas em bicos dos pés para me beijares o nariz e depois te rias muito. Tenho saudades daqueles dias em que falavas por mim e por ti e daqueles outros em que só pedias para te dar miminhos porque não estavas bem, e eu respeitava o teu silêncio. Tenho saudades da tua energia quando saíamos à noite, do brilho do teu cabelo ao sol, de quando partíamos sem rumo ás 10 da manhã e só regressávamos ás 22 da noite. Tenho saudades da tua determinação e de saberes tão bem aquilo que queres. Tenho saudades de quando, frágil, choravas e o meu coração ficava pequenino. Tenho saudades de todas as noites adormecer com a tua voz, de percorrer 400 km num dia só para te sentir, de proteger essas asas de borboleta que só mostras a quem queres. Tenho saudades dos teus amuos quando algo te deixava triste e tu não querias dizer. Tenho saudades do teu perfume, de teres sempre resposta para tudo e de ler as palavras mais bonitas escritas por ti. Tenho saudades de quando fixavas o olhar em mim, de quando acordava e te tinha a dormir tranquilamente ao meu lado, de como te preocupavas comigo e... sei lá, das coisas mais simples como dar-te a mão. Tenho saudades de nós. Tantas, tantas..

- E eu tuas. Mas num patamar bem diferente.
Cresci tanto: sou mais eu, muito mais. E não é que o meu coração já não tenha espaço para ti, muito pelo contrário. Mas a vida e as circunstâncias levaram-nos para longe; os cheiros, os momentos, os sabores e as gentes tornaram as coisas bem mais claras na minha cabeça.

E eu tenho tantos sonhos. E tantas vontades. Tantas certezas.

Hoje... já não te sinto. Já não te oiço.
Já não nos vejo.
- ...