19 janeiro 2005

Silêncio que não incomodas.

Shiuuu...lê a minha mente, limita-te a ler. Não precisas da minha voz para saberes como me sinto, o que quero, o quanto te anseio e amo. Apenas lê. Decifra o silêncio que te desamparo nesta sala negra, sozinho, só o silêncio.
Aprende.
Shiuuu...não pronuncies absolutamente nada. Fecha os olhos e ausculta o sussurro da nossa respiração, o pular frenético de um coração que te acompanha em cada compasso.
O silêncio, apenas o silêncio.
Não o acorde de uma melodia perdida nas malhas do tempo. Não o suspiro desprendido de um corpo feminino abandonado. Nem o bater vitorioso das asas de um pássaro que combate o medo do primeiro voo.
O silêncio. Apenas esse e não o sapateado das vidas que nos rodeiam.
Nada. Só o vazio. Só o eco dos nossos corações mais estrepitosos que nunca. Só tu e eu com o silêncio entre nós, não arquitectando uma barreira inultrapassável mas sim sustentando uma ponte, um elo entre dois mundos frívolos.
Não incomoda.
[O silêncio entre duas pessoas deixa de incomodar quando ambas se conhecem e se amam plenamente. O silêncio transparece sempre os mais sinceros sentimentos, as mais sentidas declarações, os mais puros e inocentes olhares...é no silêncio que se ouve a voz do outro, o murmúrio do coração alheio.]

11 janeiro 2005

Segredo.

Ainda me lembro das minhas gargalhadas quando, em miuda, num dos muitos Natais que já lá vão e tanta saudade deixam, a minha avó me estendeu os braços e ofereceu um embrulho colorido. Disse apenas é para ti, querida.

E toda eu sorri.

Com os olhos a brilhar e a curiosidade de criança a pulsar pelos sentidos, abri, desenfreadamente, o envolucro.

Sempre gostei muito dos presentes que ela gentilmente me dava. Sabia que demoravam muito tempo a ser elaborados e que neles depositava todo o carinho que nutria por mim. Por isso me dava tanto prazer, e tanto orgulho, recebê-los.

Quando ela dizia o meu nome, apressava-me a passar por entre os meus primos com um banco seguro entre mãos, punha-me bem no alto dele, no centro da sala - para que todos me pudessem ver - e com um sorriso rasgado recebia os mimos ternos que tinha para me dar.

É um doce esta minha avó. E naquele dia não foi excepção.

O laço era dourado e o papel vermelho - como a côr do fato do Pai Natal, murmurei. Invadida por algum nervosismo momentaneo, bem como por uns pózinhos de expectativa, destrui tudo: em poucos segundos o laço estava desfeito no chão e eu tinha nos braços a boneca de trapos mais bonita do Mundo.

É a tua cara – disse-me ao ouvido.

E era mesmo. As mechas de cabelo escuro atropelavam-se sobre uns enormes olhos castanhos em forma de avelã; o sorriso, esse era sincero, espontaneo; e os braços estavam abertos, para receber e guardar todos os amigos com quem me fosse cruzando.

É assim que ela me vê.

Atentou, até mesmo, a pequenos (grandes!) pormenores como o cuidado de ”me” vestir de cor de rosa, porque era a minha cor preferida; e os pés estavam descalços porque dizia que não havia maior felicidade do que ver-me a chapinhar, qual pata de água doce, nas pequenas poças de água que se acumulavam no pátio, nas gélidas manhãs de Inverno.

Cresci. Amo o calor e todas as cores que o arco-iris emana. Mas continuo a rever-me na boneca de trapos. Sempre que me perco, e não posso recorrer à minha querida avó, abraço-a com força e a tempestade logo passa, as núvens tranformam-se em sol e o que antes era névoa fica claro como água.

Afinal, há mesmo coisas que nunca mudam: eu, ela e este nosso pequeno segredo.