11 janeiro 2005

Segredo.

Ainda me lembro das minhas gargalhadas quando, em miuda, num dos muitos Natais que já lá vão e tanta saudade deixam, a minha avó me estendeu os braços e ofereceu um embrulho colorido. Disse apenas é para ti, querida.

E toda eu sorri.

Com os olhos a brilhar e a curiosidade de criança a pulsar pelos sentidos, abri, desenfreadamente, o envolucro.

Sempre gostei muito dos presentes que ela gentilmente me dava. Sabia que demoravam muito tempo a ser elaborados e que neles depositava todo o carinho que nutria por mim. Por isso me dava tanto prazer, e tanto orgulho, recebê-los.

Quando ela dizia o meu nome, apressava-me a passar por entre os meus primos com um banco seguro entre mãos, punha-me bem no alto dele, no centro da sala - para que todos me pudessem ver - e com um sorriso rasgado recebia os mimos ternos que tinha para me dar.

É um doce esta minha avó. E naquele dia não foi excepção.

O laço era dourado e o papel vermelho - como a côr do fato do Pai Natal, murmurei. Invadida por algum nervosismo momentaneo, bem como por uns pózinhos de expectativa, destrui tudo: em poucos segundos o laço estava desfeito no chão e eu tinha nos braços a boneca de trapos mais bonita do Mundo.

É a tua cara – disse-me ao ouvido.

E era mesmo. As mechas de cabelo escuro atropelavam-se sobre uns enormes olhos castanhos em forma de avelã; o sorriso, esse era sincero, espontaneo; e os braços estavam abertos, para receber e guardar todos os amigos com quem me fosse cruzando.

É assim que ela me vê.

Atentou, até mesmo, a pequenos (grandes!) pormenores como o cuidado de ”me” vestir de cor de rosa, porque era a minha cor preferida; e os pés estavam descalços porque dizia que não havia maior felicidade do que ver-me a chapinhar, qual pata de água doce, nas pequenas poças de água que se acumulavam no pátio, nas gélidas manhãs de Inverno.

Cresci. Amo o calor e todas as cores que o arco-iris emana. Mas continuo a rever-me na boneca de trapos. Sempre que me perco, e não posso recorrer à minha querida avó, abraço-a com força e a tempestade logo passa, as núvens tranformam-se em sol e o que antes era névoa fica claro como água.

Afinal, há mesmo coisas que nunca mudam: eu, ela e este nosso pequeno segredo.

3 comentários:

Anónimo disse...

Marta tá lindooooo, lindooooo, lindoooooo a sério está lindíssimo, adoro a forma como descreves o vosso "segredo". É tão bom termos avós assim, q nos "aquecem" com tanto carinho e ternura.........

Imagino como deve estar a boneca com tantos abraços!!!!
=)
Podes sempre dar-me um abraço páh!!!

Vá beijinhos sua giraçaaaaaaaaaaa, beijo, beijo, beijoAh, e para a tua Avó também =)**

Pipo

Anónimo disse...

Oi M!
Aqui há tempos pediste comentarios da minha parte e eu apesar de passar por aqui sempre que posso para dar uma espreita, nunca consegui "parar" para te deixar uma palavra... Hoje, depois de ler este teu ultimo texto, tive que "parar"...pois falas de alguém muito especial que por acaso não está a atravessar a melhor fase, mas que tenho a certeza que será passageira e que tudo voltará a entrar nos eixos e continuar o seu caminho...Consegui presenciar esse vosso "segredo" e palavras para quê quando se tratam de sentimentos puros...Um beijinho muito grande para ti e para a tua grande :) avó! :******* Ju

Vida disse...

Minha querida Martinha: não vou estar com grandes discursos, porque os grandes sentimentos tb eles estao nas pequenas palavras, nas pequenas coisas... a amizade é um deles, e é "tão só" isso que realmente sinto pela pessoa q és! :)
Por favor continua a ser essa boneca linda de trapos (que ultrapassam anos luz as de porcelana..), cheia de cor, de pormenores e dessa força e vontade tamanha de abraçar o mundo.. de abraçar a VIDA!
Conta SEMPRE comigo se precisares de "um braço extra", de um ombro amigo, de duas mãos de apoio... ou simplesmente de um desabafo, de um sorriso. Sabes que gosto muito de ti, já! ;)
Beijinhos recheados de carinho e admiração,
* Eva Coelho