Num pulo, coloco-me fora da cama, abro a janela e ponho os pés no gélido chão da varanda. A rua está adormecida sob os reflexos dourados que trespassam o eucalipto, um leve véu de nívea neblina paira sobre os campos e algumas estrelas persistem num céu de uma incontável paleta de tons de azul, rosa e amarelo. Dos outros prédios obtenho como resposta um amontoado de persianas brancas corridas até baixo. Não passam de uma cambada de energúmenos, encerrados nas suas fúnebres gaiolas, reclusos da sua auto-imposta deplorável rotina diária, desprezando os momentos mais belos do dia, adorando o berrante sol.
Numa pachorrenta mandriice, descerro lentamente os olhos e fixo-os no tecto cor de madrugada. Os primeiros raios da aurora penetram pelas cortinas, fazem ricochete no espelho e provocam engraçados jogos de luz e cor no crepúsculo do quarto. Observo a madrugada dissolvendo-se, escorrendo pelas paredes alvas, escondendo-se debaixo da cama. Sorrio, estou na fase mais doce do dia, na ténue fronteira entre a ficção e a realidade. A fantasia envolve todos os objectos e acontecimentos, tornando mágico o matinal chilrear dos pássaros, o sonoro baloiçar do enorme eucalipto, o gotejar da velha fonte. Fecho os punhos, aperto-os contra a nuca e, num demorado bocejo, deixo o sono fugir de mão dada com o sonho.
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