E eis que surge aquele momento, aquele instante tão ténue como um fio esmagado entre o indicador e o polegar, em que as luzes da rua adormecem e se apagam e o horizonte se estende num longo rosa velho, leve, breve. Todas as manhãs o sorvo com aquela sofreguidão infantil que tão bem me caracteriza e, quando uma gorda gema laranja rasga o contorno carregado dos montes e empurra a doçura púrpura do crepúsculo para debaixo da cama, eu retorno ao recortado da noite anterior, cerro os olhos, afogo-me na alvura negra dos lençóis e estico-me. Estico-me, empurro infinitamente a ponta dos pés na procura de fundo da cama que não existe; sinto-me grande, enorme, gigante. Sinto-me maior do que eu mesma, maior do que o mundo, maior do que todas as coisas com as quais me possa comparar. Apenas eu, questionando-me se o fundo da cama é mais frio ou mais quente, contando cada segundo que falta até adormecer. Finalmente.
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