21 novembro 2004

Eu & Tu = Nós?!

O filme que passa no televisor faz-me sentir cada vez mais o cansaço apoderar-se de mim. Enrolada numa manta de quadrados vou aquecendo o meu corpo por si e vou adormecendo junto à almofada e junto ao teu braço que me acompanha toda a parte superior das costas. O sofá é demasiado pequeno para os dois, volta e meia está um quase a cair no chão, é nessa altura que o outro estica o braço e entre sorrisos e quase quedas nos beijamos até cair.
No chão rebolamos como crianças, tens o mau hábito de me fazeres cócegas e eu tenho o péssimo hábito de não conseguir parar de rir. Fazemos do chão frio um areal, e da noite um momento único e especial para ambos.
Normalmente levas-me para a cama entre braços, com cuidado para que não acorde, com leveza para que não me desmanche, sempre com a preocupação de não me partires as asas transparentes e invisíveis de Borboleta em que acreditas.
Hoje não há troca selvagem de beijos, nem fazer amor, há uma troca de olhares e um sorriso ao nosso cobertor de ternura. Há um penetrar nesse imenso oceano azul onde me perco e há um entrelaçar de dedos em algumas madeixas escuras de cabelo, em movimentos desconexos e desconcentrados.
Entre carinhos e carícias soltam-se palavras e frases e nasce uma conversa, daquelas conversas que nos ocupam horas e horas e que nos levam por entre reviravoltas e consentimentos até de madrugada, onde adormecemos exaustos.
Falamos sobre Amor mas não somos românticos. Jantamos normalmente com velas e a luz da sala e do quarto é ténue, ligamos a pormenores como o embater dos raios de Sol no cortinado amarelo mas não festejamos o dia dos namorados, nem os meses de namoro, não achamos que as datas têm de ser comemoradas apenas porque sim e ainda bem. No Inverno gostamos de caminhar pelo parque e de dar pontapés nas folhas caídas, gostamos de levar o cão a passear embora vá normalmente sozinha. Gostas de acordar tarde assim como eu gosto de me deitar tarde. Quem disse que quem ama tem ciúmes? Eu não tenho ciúmes. Tu não tens ciúmes. E é desta premissa que nasce toda uma relação.
Gosto de sair contigo porque me divirto mais. E tu também. Temos muitas amizades em comum. Mas ás vezes saímos separados: não gosto de te arrastar e de te fazer sentir deslocado tal como também não gosto que tu mo faças, por isso é com leveza que aceitamos as nossas diferenças de gostos e de opiniões. Quando olham para ti, te pedem um número, te oferecem um copo não me chateio, nem gelo por dentro, nem tenho medo sequer. Confio em ti e acredito em mim. Não temos a petulância de achar que somos insubstituíveis, ninguém é. Se um dia um de nós partir, alguém chegará e a Vida voltará a ser bonita e laranja novamente. Não há que ter medo, não há que evitar, não há que esgotar o Universo de Possibilidades que nos rodeia. Não nos fechamos nem nos poupamos a novas descobertas. Acreditamos sempre que é possível algo melhor.
Nunca nos chateamos. Nunca te ouvi gritar. E quando me zango ouves-me com respeito até ao fim. És o meu contar até 10. No teu silêncio acalmo-me sempre e fico exausta depois de ter dito tudo o que queria dizer sem dares luta. Geralmente dás-me razão o que me faz sorrir por dentro. A isso ainda juntas umas palavras de admiração pela minha capacidade argumentativa o que me faz derreter de orgulho. Gostamos de andar de mãos dadas, detestamos alianças, eu gosto de andar no Body Pump e tu gostas de bodyboard.
No Verão passamos muito tempo na praia, jogo futebol com eles, lembras-te das bolhas que fiz nos pés no ano passado? Foste comigo comprar as minhas sapatilhas e em vez de me criticares pelo meu sonho de consumo fútil e estúpido sorriste-me e disseste que era a 'miúda mais gira do Mundo'. Não falamos sobre nós com ninguém. Ambos somos poços de segredos onde os fiéis amigos depositam as suas verdades. Eu não sei que segredos escondes. Tu também não sabes dos meus. Não somos um. Somos dois. Não somos perfeitos. Somos imperfeitos demais. Bebes cafés e fumas. Eu só bebo cafés. Gostas de me ver de botas altas e eu gosto de andar de tennis – ás vezes faço-te a vontade. Não gostas de dar nas vistas e eu também não. Tens olhos azuis e és moreno, eu sou morena de olhos escuros. Não gosto de marisco e tu gostas. Não acreditamos na eternidade mas pensamos no Futuro.
O Amor para mim é isto.
O Amor para ti é isto.
Fazemos sentido juntos mas somos pessoas sós.
Respeitamo-nos.
Sabes o que somos?
Somos acima de tudo amigos que um dia quiseram experimentar o Amor...

[A beleza da escrita está em sermos nós próprios mesmo quando não o somos verdadeiramente; mas isso ninguém precisa de saber.]

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