19 fevereiro 2007

O que é que acontece quando alguém nos desilude ao ponto de perdermos a confiança que depositavamos nessa mesma pessoa?

"Até ao dia em que uma pessoa se cansa (...) e diz agora basta. Basta de espera, de abnegação, de sonhos, de palavras mágicas e inconsequentes. Basta de promessas de amor, de castelos de areia, de adiamentos e hesitações, de ausências e de dúvidas."

São aqueles que mais gostamos, que maior capacidade têm de nos magoar.

Agora basta.
Até quando?

11 fevereiro 2007

Para que conste:

a mim, só me mentem uma vez.

06 fevereiro 2007

- Há várias formas de levar uma relação para a frente – dizia o Luís enquanto preparava uma sanduíche de queijo e fiambre, depois de chegarmos da praia. – Eu, por exemplo, ponho-me a jeito e deixo-me ir. O tempo vai-me dando indicações subtis se de facto um entusiasmo inicial pode ou não levar a qualquer coisa mais consistente, e nem sequer penso o que é que vai ser. A isso, os Americanos que têm grande sentido prático e são bons em expressões chamam dar um Let Go. Mas tu não. Tu passaste a vida a carregar pianos.
- Pois passei. A vida toda. Desde o dia em que me apaixonei pelo palerma da terceira classe, depois pelo primo direito da minha amiga Paula, depois pelo Miguel que não me ligava nenhuma e passava o tempo a jogar futebol e ténis. E depois, por mais meia dúzia de caramelos a quem tive o azar de achar alguma graça. Paixões de adolescência. Começam do nada e acabam em nada porque nada valem, a não ser enquanto duram, às vezes com a vida mais curta do que uma mosca. Paixões impossíveis, que nos tiram o sono e o apetite, nos põem a contar as estrelas e a escrever poemas pirosos, nos fazem rezar mesmo quando já deixámos de ir à missa desde os doze anos, nos adoçam o coração e o olhar e enchem a almofada de água salgada quando as coisas correm mal, ou pior ainda, não correm.

Depois uma pessoa cresce e habitua-se a sofrer. A esperar. A sonhar um bolo gigante a partir de três migalhas. A acreditar no impossível. A desejar o impensável. A querer que aqueles que amamos nos tragam o mundo numa bandeja. A isto chama-se carregar pianos. Até ao dia em que uma pessoa se cansa, baixa os braços, olha para o piano, encolhe os braços e diz agora basta. Basta de espera, de abnegação, de sonhos, de promessas, de palavras mágicas e inconsequentes. Basta de promessas de amor, de castelos de areia, de adiamentos e hesitações, de ausências e de dúvidas. E depois, o mundo vai abaixo. As casas, os prédios, as pontes, tudo se desfaz num estrondo imenso e assustador, que faz quase tanto barulho como um coração a bater com a porta. E como é o nosso coração que está a bater a porta, ainda custa mais.

E sentimo-nos a desmanchar por dentro. Não é a partir, é só a desmanchar, como se nada tivesse forma ou fizesse sentido. E o piano está ali mesmo em frente, à espera de ser carregado. Dá vontade de pegar num martelo e de o destruir de raiva. Dá vontade de o abrir e tocar meia dúzia de notas. Dá vontade de descansar sobre ele e falar-lhe baixinho, ao ouvido das cordas, para lhe explicar o que se passa. Que o cansaço já está acima do sonho, que o medo está acima da força, que a vontade comanda a vida, mas não o amor. Explicar que o tempo há-de trazer nos ventos a indicação de um caminho qualquer para onde o piano possa ir sem ser carregado.
Carregar pianos. Escada acima, quatro andares sem elevador. As costas doem, os braços tremem, as curvas na escada são uma equação impossível de resolver. Tudo é difícil. Tudo é esforço. Tudo é inglório. E o amor transforma-se numa luta, num sacrifício, somos mártires da nossa loucura, flagelados pela nossa obstinação e teimosia. E o pior é que, quando chegamos ao fim da batalha e o piano está lá em cima, não era naquela sala, nem naquela casa, nem era aquela pessoa.
Carregar pianos. Para quê, se quase todos têm rodinhas? Não é desistir, é só mudar de vida e esperar que ela nos traga o(s) que mais precisamos, sem partir as costas nem torcer os braços.
E geralmente até traz.

29 janeiro 2007

Laranjas no ar

Pega no telefone e liga-lhe, não tens nada a perder. Diz-lhe que tens saudades dele, que ninguém te faz tão feliz, que os teus dias são secos, frios e áridos, como um deserto imenso, sem oásis nem miragens, sempre que não estão juntos. Pega no telefone e liga-lhe. Se ele não atender, deixa-lhe uma mensagem. Ou então escreve-lhe uma mensagem a dizer que queres estar com ele. Não te alongues nem elabores, os homens nunca percebem o que queres deixar cair nas entrelinhas. Tens de ser clara, directa, incisiva. E não podes ter medo, porque o medo é o maior inimigo do amor. Cada vez que deixares o medo entrar-te nas tuas veias, ele vai gelar-te o sangue e paralisar-te os nervos, ficas transformada numa estátua de sal e morres por dentro.
A vida é uma incógnita, hoje estás aqui, amanhã podes ficar doente, ou cair-te um piano em cima quando fores a andar na rua. Ainda há pessoas que atiram pianos pela janela, sabias? Nunca se sabe como será o dia de amanhã, por isso não percas tempo: pega no telefone e liga-lhe. Tenho a certeza que ele te vai ouvir, tenho a certeza que ele te vai ajudar, tenho a certeza que ele, à sua maneira - e é tão estranha a forma como os homens gostam de nós - ainda gosta de ti. Mesmo que já não te ame, ainda gosta de ti, como tu vais aprender a gostar dele, quando a vida te obrigar a desistir deste amor. Ele está longe, mas olha por ti por entre memórias, presentes e flores. À noite, entre sonhos alterados pelo álcool, tu apareces-lhe na cama e ele volta a sentir o cheiro da tua pele e volta a amar-te com todas as suas forças. Ainda que não acredites, tu viverás para sempre nele, tal como ele vive em ti, na memória das tuas células, num passado que pode ser o teu escudo, mesmo que não seja o teu futuro.
Pega no telefone e liga-lhe. Fala com ele de coração aberto, diz-lhe que o queres ver, chora se for preciso, pede-lhe que te diga se sim ou se não. Se for preciso, por mais que te custe, pede-lhe para te escrever a palavra NÃO. Pede-lhe uma resposta para o teu coração. Mais vale saberes que acabou tudo do que viveres com as laranjas todas no ar, qual malabarista exausto, sem saberes nem como nem quando elas vão cair. Mais vale chorar a tristeza de um amor perdido do que sonhar com um oásis que se transformou numa miragem.
Pega no telefone e liga-lhe. Liga as vezes que forem precisas até conseguires uma resposta, a paz de uma certeza, mesmo que essa certeza não seja a que desejavas ouvir. Mas não fiques quieta, à espera que a vida te traga respostas. A vida é tua, tens de ser tu a vivê-la, não podes deixar que ela passe por ti, tu é que passas por ela. E quando todas as laranjas caírem, apanha-as com cuidado, guarda-as num cesto e muda de profissão. O circo é para quem não tem casa nem país, não é vida para ninguém. Guarda as laranjas num cesto, leva-as para casa e faz um bolo de saudades para esquecer a mágoa. E nunca deixes de sonhar que, um dia, tal como eu, vais encontrar alguém mais próximo e mais generoso, que te ensine a ser feliz, mesmo com todas as pedras que encontrarem no caminho.
Larga as laranjas e muda de vida. A vida vai mudar contigo.

In Diário da tua ausência,
Margarida Rebelo Pinto

Escreveste-o para mim, não foi Margarida?
[Que fazer? Estou naquela fase a puxar para o romance piroso! É de cordel, eu sei, um cordel muito Moda Lisboa, muito Cascais e Foz, muito somos chiques e temos imenso visa. Mas hoje, sem duvida que encaixou!]

26 janeiro 2007

Estado de Espírito:

Irremediávelmente TRISTE e tao FARTA...

22 janeiro 2007

Nem toda a distância é ausência.
Nem todo o silêncio é esquecimento.
10 dias.

17 janeiro 2007

E depois há aqueles que, tão cheios de nós, nos pressentem mesmo longe. Mesmo sem nós pedirmos ou querermos – porque ás vezes sabe bem guardar(-nos) e esconder as fragilidades - decifram os nossos detalhes e desenham-nos sorrisos.

16 janeiro 2007

De há uns meses para cá, eu sou só SAUDADES.
tuas.
- Não podes ver, é só meu!, dizia ela, agarrando com força o pequeno baú trancado a sete chaves.
- Mas nós somos melhores amigos, e a minha mãe disse-me que quando assim é não há segredos.
- Então mentiu-te. A minha sempre me ensinou que os melhores amigos não existem. Um dia estão contigo e no outro já não querem saber de ti.
- Mas eu estou contigo todos os dias.
- Naquela tarde, quando caí da bicicleta, não...!
- Já era tarde e eu tinha que ir fazer os T.P.C's... mas levei-te no coração...!

- ... E se eu te disser que o baú não tem nada?
- Eu acredito.
- Então fica o nosso segredo?

13 janeiro 2007

Perguntou para não lhe pesar a consciência:
- Como estás?
Mais uns segundos, e insiste:
- Como estás?!
- Cheia de R-a-i-v-a!, gritou ela. E logo a seguir soltou um suspiro desesperado. Depois foi o silêncio. Silêncio ensurdecedor. Ele ia abrir a boca de novo, mas ela logo a tapou com a mão suada, em forma de concha.
- Não digas mais nada.
- Mas…
-Por favor…, suplicou com as lágrimas quentes a encherem-lhe os olhos. Ele tentou agarrá-la pelo braço, mas ela empurrou-o. Corou. E, num soluço tímido, virou costas. Virou costas, e nunca mais regressou àquele lugar só deles. “Nunca, nunca, nunca…”, ecoa no velho relógio da memória.

07 dezembro 2006


When you kissed me
you seduced me forever.
And forever
means for ever&ever
into my little world.

22 novembro 2006

Lembras-te de quando, no sábado à noite, chegámos "a casa" e nos aninhamos no sofá? Não me recordo as horas ou sequer os minutos que os ponteiros marcavam... mas já devia ser tarde: contigo o tempo voa. É sempre assim quando os momentos têm consistência e as pessoas substância.
Descansei tranquila, embalada pela luz da televisão e o calor do teu corpo abraçado ao meu peito. Nessa noite não houve teorias para explicar os arrepios. Não houve equações que complicassem e me fizessem afastar desse estado pleno. Só a química, tão pura e simples. E a doçura do teu adormecer, em mim.
O Tu e o Eu perfeito.
Guardo o momento. [Tal como guardo cada beijo que sai da tua boca de encontro à minha…] O teu cheiro era o meu cheiro e eu fiquei ali a observar-te - completa - e assim ficarei por todo o tempo que te conseguir sentir. E eu sei que vai ser para sempre.
Enquanto me deixares aninhar-te ao meu colo, irei tornar o teu sorriso certo.
Prometo.
"- Vamos dormir bebé?"
Lembras-te?

27 junho 2006






SHE








can be the girl of your dreams.

14 junho 2006

Quando já nada é intacto
Quando tudo na vida vem em pedaços
E por dentro me rebenta um mar.
Quando a cidade alucina
Num luar de néon e de neblina
E me esqueço de sonhar.
Quando há qualquer coisa que sufoca
E os dias são iguais a outros dias
E por dentro o tempo é tão voraz.
Quando de repente num segundo
Qualquer coisa me vira do avesso
E desfaz cada certeza do meu mundo.
Mafalda Veiga, Quando.
.tão verdade.

13 maio 2006

People don't know how to love. They bite rather than kiss. They slap rather than stroke. Maybe it's because they recognize how easy it is for love to go bad, to become suddenly impossible... unworkable, an exercise of futility. So they avoid it and seek solace in angst, and fear, and aggression, which are always there and readily available. Or maybe sometimes... they just don't have all the facts.
The Upside of Anger (2005), Mike Binder

09 maio 2006


Tens fios de mais a prender(-TE) as cordas.
Tens riscos de mais a estragar(-ME) a tela.
[Toranja]
Melhor assim. Let it die.

03 maio 2006

- Eu gosto MESMO dele, não percebes?!

- Percebo, claro que percebo! Tu é que parece que não Margarida!

- É incrivel... Já reparaste que de toda a vez que conheço um Homem interessante, tu acabas sempre por deitar todos os meus sonhos por terra?

- Não me faças rir, sabes perfeitamente que aquilo não é um Homem... já olhaste bem para aquela carinha de bebé? Aposto que por baixo daquelas sweats à puto surfista nem um único pêlo no peito ele consegue ter!

- Não sejas assim Bia... o Francisco é diferente.

- Claro que é diferente: tem 18 anos! Aí reside toda a diferença! De resto, deve ser em tudo igual aos outros que passaram pela tua vida. Eu só estranho é o facto de tu, inteligente como és, te deixares levar no que toca a assuntos do coração! Queres que contabilize as quedas que já deste?

- Não... eu sei bem que não tenho tido sorte.

- Sorte? Eu chamava-lhe antes pontaria.

- Porque é que és assim? Caramba Bia, eu só quero ser feliz!

- E não é o que queremos todos? Só que tu estás a ir de novo (!) pelo caminho errado. Será que não vês o óbvio? Tu és girissima, tens um corpo de fazer inveja a qualquer miuda da idade dele, tens carro, dinheiro q.b., casa própria e um emprego fantástico... o que é que ele podia querer mais?

- Podia querer isso tudo, mas não... ele disse-me que queria ser feliz comigo, para sempre.

- Para sempre? Oh Guida... desconfiava que as coisas estavam mal, mas nunca a este ponto. Sabes até quando é que é o “para sempre” dele? Até ele se fartar! Até as coisas entrarem numa rotina chata e ele não querer saber mais de ti... Afinal de contas ainda tem a vida toda para se preocupar com compromissos! Mas espera... e tu? Por quanto tempo é que achas que vais aguentar tomar conta de criancinhas?

- Estás a ser cruel Bia, independentemente de seres minha amiga eu não te admito que me fales nesse tom, especialmente quando estamos a falar do Chico! Ou queres que dê a volta à conversa e comece a falar sobre ti?! Hãn?!!

- A minha vida não é para aqui chamada. O que eu quero dizer é que ás tantas vais chegar a um ponto que te vais cansar de o ouvir falar em pranchas de surf, em como precisa mesmo de comprar um chop e um deck novo... E depois, como é que vai ser? Com quem é que vais falar sobre as cheias na Sibéria? Sobre o novo livro do Paulo Coelho? Sobre as tuas ideias para as novas campanhas publicitárias de determinada empresa? Sobre o último CD do Rodrigo Leão? Sobre aquele musical fantástico que está no D.Maria...? Com quem? Explica-me.

- Eu estou farta dessas tretas! Estou farta de viver agarrada aos mesmos gostos monótomos que tenho vindo a cultivar de há 24 anos para cá! O Chico dá-me vontade de viver! Não imaginas os fins de tarde fantásticos que temos tido na praia... e para que saibas eu até já me consigo por de pé em cima de uma pracha!

- Fantástico Guida, só por isso acho que já vale mesmo a pena acreditar no vosso “nós”. Mas realmente, agora pensando bem... eu é que estou a ver as coisas pelo lado errado, eu é que sou a má da fita! Não é?

- Não, claro que não. És minha amiga... a minha melhor amiga, e tens medo de me ver sofrer de novo por um palhaço qualquer.

- Como aconteceu com o teu ex, por exemplo.

- Sim, mas esse era diferente.

- Mau... esse também era diferente?

- Não é isso... o António sabe muito. Com aquela aparência fragil e..

- Aparência frágil? Vamos chamar as coisas pelos nomes: ele era feio como tudo Margarida!

- Sim... mas o pior foram mesmo as promessas, para dois meses depois acabar tudo, sem explicar sequer porquê.

- Ora porquê... porque queria passar uns bons momentos, e tu apareceste-lhe certeira, á hora errada e no sitio errado. Mas esquece isso, esse há-de ser infeliz para toda a vida... de certeza que a esta hora já encontrou uma Mulher que lhe faz o mesmo que ele te fez a ti e pronto, ficam as contas ajustadas! Além de que... se estraga só uma casa!

- És mesmo tonta... Só tu!

- Mas voltando à "vaca fria"... se tu e o Francisco estão assim tão apaixonados... porque é que não assumem tudo? Porque é que não namoram de vez?

- Porque ele diz que tem medo...

- Medo?? Oh Margarida, tou farta desta história! Isto é ridiculo!

- Farta estou eu que te metas na minha vida e te aches assim tão importante para julgares o que faço ou que deixo de fazer e com quem! Isso é tudo inveja? É? Vá, diz lá...

- Não...

- Ah não é? Então é o quê? Também querias ter alguém que gostasse de ti como o Chico gosta de mim, porque desde que te divorciaste nunca mais conseguiste encontrar ninguém! Sentes-te sozinha e infeliz e também queres que eu me sinta assim, não é?

- Não, não é...

- Então é o quê? Diz lá, vá! Porque é que de repente te calaste?

- Por nada, tu depois vais perceber...

- Porra! Não tenho paciência para isto, não tenho paciência para ti, não tenho paciência para os filmes que tu fazes! Ridicula és tu e ...

- PÁRA! Pára antes que te arrependas do que vais dizer e depois não há mais volta a dar.

- Eu só vou parar quando tu parares de te meteres onde não deves...

- E eu só vou parar quando te vir feliz!

- Mas eu estou feliz Bia!

-
Estás feliz com um gajo que te diz que fica em casa a estudar e depois vai para o bairro alto comer pitas de 16 anos? Qual é o medo dele? De um dia ser apanhado?...

- ...

- ... Desculpa. Eu sei que havia maneiras mais simpáticas de te dizer isto, mas não consegui controlar-me... Desculpa querida, desculpa.

- ...

- ... Desculpa por ainda não ter sido desta, mas prometo que está para breve a chegada do teu príncipe. Prometo amiga.
Prometo.


27 abril 2006

"A gente não faz amigos, reconhece-os."

Vinicius de Morais

12 abril 2006

Depois de quase duas horas de trânsito infernal na segunda circular, chego finalmente a casa.
Acendo as luzes, atiro a mala para cima do sofá e dirijo-me ao quarto. A cama, essa, ainda está por fazer. Dispo a roupa que trasanda a cansaço e, em passos demorados, desloco-me até à banheira - preciso de um banho quente, relaxante, como só quando estamos no nosso canto podemos ter.
Tudo seria perfeito se os meus sentidos não fossem despertos pelo toque estridente da campainha. Enquanto visto o roupão vou rogando pragas, entre dentes, à vizinha do segundo frente que – de certeza! – me vem fazer novamente queixas do seu “hômên”, retorquindo que este já não dorme em casa hà mais de quinze noites. [Ok, eu percebo que ela esteja doente e que os sintomas se tenham agravado com a morte do marido, mas já lá vão cinco anos caramba!]
Tocam de novo.
Só agora estou suficientemente alerta para descodificar a confusão em que deixei a sala quando saí de manhã, no entanto não o bastante para a arrumar. Limitei-me a ignorá-la: espreitei pelo orificio da porta e não vi ninguém. Pela fresta da mesma surge um pequeno papel branco com algumas letras cuidadosamente desenhadas a preto: “Ás 21, no teu lugar preferido.”
Deixei cair o papel no chão e a todo o custo, entre medos e anseios, tentei identificar a caligrafia... em vão. Secretamente desejei que fosses tu. Não te telefonei, mandei mensagem ou muito menos me ocorreu procurar-te para confirmar esta ideia descabida. Deixei-me assombrar pelas visões mais platónicas possíveis, tal e qual o nosso “nós”.
E demorei-me no banho.
Sabia que poucos eram os homens capazes de me surpreender e ainda menos aqueles que me conheciam tão bem ao ponto de saber qual é O meu lugar. Recordei com doçura a forma como nos conhecemos e como a partir daí começamos a ser indispensáveis para o bem-estar um do outro. Nunca nos vimos, nunca nos tocámos, mas tenho a certeza que nos reconheceriamos no escuro. Sabes todas as minhas fragilidades e vês-me muito para além da estrutura de menina que teimo em mostrar(-te); e eu, sei-te como poucos, sinto-te como escassos e vejo-te como nenhuns. O facto é que a tua importância foi crescendo de dia para dia, e mesmo que não tenhas estado sempre presente, mesmo havendo espaços em branco, não me lembro de uma única vez que tenha estado triste e tu não me tenhas ouvido, não (me) tenhas pressentido. É impossivel esquecer as mais que muitas vezes em que te disse que sabia bem ter-te assim, por perto, porque sei que depois de tudo tu estás sempre aí para proteger o meu voo e mimar a minha queda. A verdade é que já nos temos há imenso tempo, e de cada vez que algo corre mal ou bem, a primeira pessoa que surge na minha cabeça és tu. Por isso hoje, institivamente, pensei em ti. Queria que fosses tu. Muito.
E com isto, o relógio já marcava 20:15. Apressei-me a sair da banheira, passeei-me nua pela casa, saboreei um copo de Barca Velha, sequei o cabelo e abri o armário. Não demorei muito para escolher o que vestir: umas calças justas de ganga clara, uma camisola perlé de gola alta branca, um cinto e umas botas castanhas, o relógio da D&G, umas gotas de Noix de Coco da Yves Rocher et... VOILÁ! Contra todos os clichés e expectativas, consegui arranjar-me em menos de 5 minutos.
Peguei nas chaves do carro e saí.
Depois de alguns kilometros cheguei ao [...!] e recebi uma mensagem anónima: “Acertas-te e pelos vistos eu também. Para me encontrares só tens de dar 30 passos para a frente do poste de iluminação e mais 20 para o lado direito. Até já, Beijo doce”.
Eras tu. Acabaste de te denunciar sem perceberes. Num misto de nervosismo e ansiedade fiz o que me pedias, não pensando sequer no ridiculo que seria ver a minha figura a contar os passinhos, cuidadosamente. Confesso que quis voltar para trás inúmeras vezes: ceder à curiosidade e á vontade de estar contigo, pelo receio de nos perder naquela noite, de a magia desaparecer e o desejo não ser o mesmo.
Será que ele não tem medo?
Quando cheguei ao local por ti apontado, a única coisa que encontrei foi um girassol amarelo e um pequeno papel branco, idêntico ao primeiro:

“Claro que tenho medo. E por isso hoje, e pelo menos só por mais esta noite, vamos poder adormecer a pensar em como gostamos um do outro, ainda que platónicamente, e como isso nos chega para sorrir. Porque me fazes bem, porque eu só fujo uma vez e porque amanhã pode já não ser bem assim, beijo terno. M.”
Aquilo era tudo tão teu, e eu (?) cada vez mais tua.
[é assim que vai ser? :) ]

08 abril 2006

CERTEZA

... de que nunca volto ao(s) lugar(es) onde fui feliz

porque SIMPLESMENTE nada será igual.