Depois de quase duas horas de trânsito infernal na segunda circular, chego finalmente a casa.
Acendo as luzes, atiro a mala para cima do sofá e dirijo-me ao quarto. A cama, essa, ainda está por fazer. Dispo a roupa que trasanda a cansaço e, em passos demorados, desloco-me até à banheira - preciso de um banho quente, relaxante, como só quando estamos no nosso canto podemos ter.
Tudo seria perfeito se os meus sentidos não fossem despertos pelo toque estridente da campainha. Enquanto visto o roupão vou rogando pragas, entre dentes, à vizinha do segundo frente que – de certeza! – me vem fazer novamente queixas do seu “hômên”, retorquindo que este já não dorme em casa hà mais de quinze noites. [Ok, eu percebo que ela esteja doente e que os sintomas se tenham agravado com a morte do marido, mas já lá vão cinco anos caramba!]
Tocam de novo.
Só agora estou suficientemente alerta para descodificar a confusão em que deixei a sala quando saí de manhã, no entanto não o bastante para a arrumar. Limitei-me a ignorá-la: espreitei pelo orificio da porta e não vi ninguém. Pela fresta da mesma surge um pequeno papel branco com algumas letras cuidadosamente desenhadas a preto: “Ás 21, no teu lugar preferido.”
Deixei cair o papel no chão e a todo o custo, entre medos e anseios, tentei identificar a caligrafia... em vão. Secretamente desejei que fosses tu. Não te telefonei, mandei mensagem ou muito menos me ocorreu procurar-te para confirmar esta ideia descabida. Deixei-me assombrar pelas visões mais platónicas possíveis, tal e qual o nosso “nós”.
E demorei-me no banho.
Sabia que poucos eram os homens capazes de me surpreender e ainda menos aqueles que me conheciam tão bem ao ponto de saber qual é O meu lugar. Recordei com doçura a forma como nos conhecemos e como a partir daí começamos a ser indispensáveis para o bem-estar um do outro. Nunca nos vimos, nunca nos tocámos, mas tenho a certeza que nos reconheceriamos no escuro. Sabes todas as minhas fragilidades e vês-me muito para além da estrutura de menina que teimo em mostrar(-te); e eu, sei-te como poucos, sinto-te como escassos e vejo-te como nenhuns. O facto é que a tua importância foi crescendo de dia para dia, e mesmo que não tenhas estado sempre presente, mesmo havendo espaços em branco, não me lembro de uma única vez que tenha estado triste e tu não me tenhas ouvido, não (me) tenhas pressentido. É impossivel esquecer as mais que muitas vezes em que te disse que sabia bem ter-te assim, por perto, porque sei que depois de tudo tu estás sempre aí para proteger o meu voo e mimar a minha queda. A verdade é que já nos temos há imenso tempo, e de cada vez que algo corre mal ou bem, a primeira pessoa que surge na minha cabeça és tu. Por isso hoje, institivamente, pensei em ti. Queria que fosses tu. Muito.
E com isto, o relógio já marcava 20:15. Apressei-me a sair da banheira, passeei-me nua pela casa, saboreei um copo de Barca Velha, sequei o cabelo e abri o armário. Não demorei muito para escolher o que vestir: umas calças justas de ganga clara, uma camisola perlé de gola alta branca, um cinto e umas botas castanhas, o relógio da D&G, umas gotas de Noix de Coco da Yves Rocher et... VOILÁ! Contra todos os clichés e expectativas, consegui arranjar-me em menos de 5 minutos.
Acendo as luzes, atiro a mala para cima do sofá e dirijo-me ao quarto. A cama, essa, ainda está por fazer. Dispo a roupa que trasanda a cansaço e, em passos demorados, desloco-me até à banheira - preciso de um banho quente, relaxante, como só quando estamos no nosso canto podemos ter.
Tudo seria perfeito se os meus sentidos não fossem despertos pelo toque estridente da campainha. Enquanto visto o roupão vou rogando pragas, entre dentes, à vizinha do segundo frente que – de certeza! – me vem fazer novamente queixas do seu “hômên”, retorquindo que este já não dorme em casa hà mais de quinze noites. [Ok, eu percebo que ela esteja doente e que os sintomas se tenham agravado com a morte do marido, mas já lá vão cinco anos caramba!]
Tocam de novo.
Só agora estou suficientemente alerta para descodificar a confusão em que deixei a sala quando saí de manhã, no entanto não o bastante para a arrumar. Limitei-me a ignorá-la: espreitei pelo orificio da porta e não vi ninguém. Pela fresta da mesma surge um pequeno papel branco com algumas letras cuidadosamente desenhadas a preto: “Ás 21, no teu lugar preferido.”
Deixei cair o papel no chão e a todo o custo, entre medos e anseios, tentei identificar a caligrafia... em vão. Secretamente desejei que fosses tu. Não te telefonei, mandei mensagem ou muito menos me ocorreu procurar-te para confirmar esta ideia descabida. Deixei-me assombrar pelas visões mais platónicas possíveis, tal e qual o nosso “nós”.
E demorei-me no banho.
Sabia que poucos eram os homens capazes de me surpreender e ainda menos aqueles que me conheciam tão bem ao ponto de saber qual é O meu lugar. Recordei com doçura a forma como nos conhecemos e como a partir daí começamos a ser indispensáveis para o bem-estar um do outro. Nunca nos vimos, nunca nos tocámos, mas tenho a certeza que nos reconheceriamos no escuro. Sabes todas as minhas fragilidades e vês-me muito para além da estrutura de menina que teimo em mostrar(-te); e eu, sei-te como poucos, sinto-te como escassos e vejo-te como nenhuns. O facto é que a tua importância foi crescendo de dia para dia, e mesmo que não tenhas estado sempre presente, mesmo havendo espaços em branco, não me lembro de uma única vez que tenha estado triste e tu não me tenhas ouvido, não (me) tenhas pressentido. É impossivel esquecer as mais que muitas vezes em que te disse que sabia bem ter-te assim, por perto, porque sei que depois de tudo tu estás sempre aí para proteger o meu voo e mimar a minha queda. A verdade é que já nos temos há imenso tempo, e de cada vez que algo corre mal ou bem, a primeira pessoa que surge na minha cabeça és tu. Por isso hoje, institivamente, pensei em ti. Queria que fosses tu. Muito.
E com isto, o relógio já marcava 20:15. Apressei-me a sair da banheira, passeei-me nua pela casa, saboreei um copo de Barca Velha, sequei o cabelo e abri o armário. Não demorei muito para escolher o que vestir: umas calças justas de ganga clara, uma camisola perlé de gola alta branca, um cinto e umas botas castanhas, o relógio da D&G, umas gotas de Noix de Coco da Yves Rocher et... VOILÁ! Contra todos os clichés e expectativas, consegui arranjar-me em menos de 5 minutos.
Peguei nas chaves do carro e saí.
Depois de alguns kilometros cheguei ao [...!] e recebi uma mensagem anónima: “Acertas-te e pelos vistos eu também. Para me encontrares só tens de dar 30 passos para a frente do poste de iluminação e mais 20 para o lado direito. Até já, Beijo doce”.
Eras tu. Acabaste de te denunciar sem perceberes. Num misto de nervosismo e ansiedade fiz o que me pedias, não pensando sequer no ridiculo que seria ver a minha figura a contar os passinhos, cuidadosamente. Confesso que quis voltar para trás inúmeras vezes: ceder à curiosidade e á vontade de estar contigo, pelo receio de nos perder naquela noite, de a magia desaparecer e o desejo não ser o mesmo.
Será que ele não tem medo?
Quando cheguei ao local por ti apontado, a única coisa que encontrei foi um girassol amarelo e um pequeno papel branco, idêntico ao primeiro:
“Claro que tenho medo. E por isso hoje, e pelo menos só por mais esta noite, vamos poder adormecer a pensar em como gostamos um do outro, ainda que platónicamente, e como isso nos chega para sorrir. Porque me fazes bem, porque eu só fujo uma vez e porque amanhã pode já não ser bem assim, beijo terno. M.”
Eras tu. Acabaste de te denunciar sem perceberes. Num misto de nervosismo e ansiedade fiz o que me pedias, não pensando sequer no ridiculo que seria ver a minha figura a contar os passinhos, cuidadosamente. Confesso que quis voltar para trás inúmeras vezes: ceder à curiosidade e á vontade de estar contigo, pelo receio de nos perder naquela noite, de a magia desaparecer e o desejo não ser o mesmo.
Será que ele não tem medo?
Quando cheguei ao local por ti apontado, a única coisa que encontrei foi um girassol amarelo e um pequeno papel branco, idêntico ao primeiro:
“Claro que tenho medo. E por isso hoje, e pelo menos só por mais esta noite, vamos poder adormecer a pensar em como gostamos um do outro, ainda que platónicamente, e como isso nos chega para sorrir. Porque me fazes bem, porque eu só fujo uma vez e porque amanhã pode já não ser bem assim, beijo terno. M.”
Aquilo era tudo tão teu, e eu (?) cada vez mais tua.
[é assim que vai ser? :) ]
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