No armário o cachecol, e nele o teu cheiro. Enrolo-me como quando ainda não conhecia o teu sabor. Regresso a uma noite qualquer perdida no passado: lembro-me de apontares para o céu cheio de estrelas e dizeres coisas bonitas. Demoro-me então no teu pescoço, demoro-me horas. E quero sempre mais. Recordo o teu toque e arrepio-me sem te ter aqui. Sorris com doçura. Dás-me a mão entrelaçando os teus dedos nos meus, apertas-me contra o teu peito, aproximas os teus lábios húmidos, e antes que soltes um amo-te inocente e sem sentido a que o momento propicia, o meu dedo indicador pede-te silêncio. Mas tu, egoísta, abraças-me e dizes a palavra proibida. Peço-te que pares e tu não percebes a minha frieza.
Mas e agora? E agora que sou só eu e o cachecol na cama vazia? Agora que os ponteiros do relógio consomem esta noite chuvosa... vês porque tinha medo?
[Porque não só no carnaval nos podemos vestir de uma pessoa que não nós. Essa é a magia da escrita.]
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