26 janeiro 2006

Hoje o céu está pintado em tons cinza, alternados a espaços com brancos sujos e reflexos prateados. A ameaça de chuva é eminente, mas mesmo assim, achaste por bem sairmos do nosso esconderijo secreto. Quiseste ir ver a praia, visitar esse mar que dizes ser teu, mais uma vez, sem medo dos meus ciúmes de menina, sem medo das lágrimas que esse céu triste poderia verter.
Não estava mais ninguém na praia, como era previsível. Apenas nós os dois, bem enroscados em casacos grossos, protegidos do frio e da brisa cortante. De mão dada, lá fomos percorrendo a areia húmida e lisa. Os nossos passos ficam até á próxima maré, marcados com o peso de um amor que vive com as onda do mar, num vai e vem eterno, meigo nos dias de calmaria, apaixonado nos dias de tempestade.
Delicio-me com o nosso tempo, as nossas carícias, os beijos trocados livremente. Diz-me que não sonho quando vivo dias assim. Diz-me que não sonho quando me abraças. Diz-me quando foi a última vez que pediste á lua um minuto comigo…
Agora estás parado, de pé, a olhar fixamente as ondas que se desfazem perante os teus pés e aquelas outras, que ao fundo ainda se formam. Afasto-me, para te contemplar em grande angular. A tua expressão é séria, fixa num objectivo, num sonho que tenho dificuldade em compreender. Mas o quadro final é de uma serenidade quase irreal. O vento a abanar os teus cabelos livres. O som do mar, esse murmúrio constante quebrado pela morte das ondas, e o seu azul. O cinzento do céu. Os pequenos grãos de areia e... os teus olhos.
Pego na máquina fotográfica, para tentar guardar esta imagem para sempre. Giro em teu redor, fotografando todos os teus ângulos, todos os movimentos do teu cabelo. Dou voltas e voltas, até desenhar um círculo na areia, onde ficamos ambos encerrados, simbolicamente, como se nada no mundo, pudesse atravessar esse círculo mágico construído na areia húmida da nossa praia. Somente paro quando tu, doce, esboças um sorriso sincero que quebra o tempo, e te agarras a mim num abraço lento, sentido, sorridente, sonhador.
E depois do beijo, o mundo até poderia ter acabado ontem…

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