(...) Falámos demasiado para que eu esqueça do que falámos, vivemos demasiadas vidas para que eu as possa separar. Para que eu me possa separar de ti. A memória tende a desfibrar-se, víscera velha, nesta condição a que chamei apenas imaterial para não te assustar. Vejo tudo, continuamente. O espetáculo da vida interfere com a minha deambulação ao passado. (...) Qualquer dia olho para ti e já não sei quem fomos - encontros, desencontros, iras, ressentimentos, tudo se transforma numa massa fosca, pesada, que tento abandonar a pouco e pouco. (...) Começo a ver-te fora do tempo, esforço-me muito para recapitular o que me traz aqui, quase sobre o teu ombro. Inclino-me sobre a tua cabeça mas não consigo decifrar o teu pensamento. (...) O estado em que me encontro é angustiante: como se vivesse em sonolência diante de um filme que já não posso recriar, vendo tudo: o passado e o futuro - que afinal são um só - e aprendendo demasiado tarde o que não fui capaz de ver. Deve ser isto o limbo. (...) Precisava escangalhar o teu coração para fazer encaixar o meu. E agora tenho de o desencaixar outra vez para sair deste limbo. Mas não sei como. Sem o teu coração não consigo amar. Logo eu, que amava o Mundo inteiro, não é? Amar em abstracto é muito mais ágil do que amar em concreto. (...) Nós éramos um do outro. (...)
in Fazes-me Falta, Inês Pedrosa
1 comentário:
Acreditas q hj andei com este livro na mao? ;) *
Lindo!*
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