27 junho 2007

"Tenho aflição por toda a ausência não anunciada (...)"
Daniel Faria
Quero-te dizer uma coisa simples: a tua ausência dói-me. Refiro-me a essa dor que não magoa, que se limita à alma; mas que não deixa, por isso, de deixar alguns sinais - um peso nos olhos, no lugar da tua imagem, e um vazio nas mãos. São estas as formas do amor, podia dizer-te; e acrescentar que as coisas simples também podem ser complicadas, quando nos damos conta da diferença entre o sonho e a realidade. Porém, é o sonho que me traz a tua memória; e a realidade aproxima-me de ti, agora que os dias correm mais depressa, e as palavras ficam presas numa refracção de instantes.
Não sei se noutras culturas o pensamento é o mesmo ou se a mentalidade já superou as tradições que se colam a gerações e gerações sem que ninguém as questione. Mas por cá sempre me impingiram a ideia de que o tempo resolve tudo. Utopias. É o hábito que engana aquilo que o tempo julga resolver: há falta de uma cama há sempre o chão. Mas quando o chão me foge apercebo-me que o tempo, afinal, não cura nada. Afunda o ímpar no quotidiano, como se os dias se mordessem de fúria, qual deles o mais saudoso de coisa nenhuma. E realmente vou-me domesticando à ideia da perda, da saudade miudinha que não morre, apenas se veste da pele tornando-se banal demais. É por isso que ao fim de meses, achamos que afinal o tempo resolveu e nada sangra como dantes. É já banal o hábito. A dor. Depois ela vai, estreita. Amanhece na pele como a ausência depois do beijo. E depois tu. E é sempre do mesmo lado que te encontro: o lado esquerdo do peito... Afinal o tempo não resolveu os teus olhos dentro dos meus.
Respiro e dói, escrevo e dói, tenho-te e acaba-me. O silencio impossível e nem assim, porque maior é o desespero. E dizes-me que vai passar. E não passa. E destrói. E mata.
Dou por mim em ti inúmeras vezes. Um golpe mais fundo de estrada e o desvio para os braços que me adormecem sem querer. Dou por mim em mil tempos à procura de um canto que me tenha longe da tua voz. E isso faz-me querer ir. Arrancar o que me dóis e partir estrada dentro do desejo. Rematar a diferença que morre comigo em guerra aberta, umas vezes mais agreste, mais difícil.
E ontem fui. Já tinha saído para o mundo e tu de novo nos meus braços. Esse abraço forte e fugidio que é o cheiro da minha pele. Depois chegaste e eu não queria. Queria muito, mas não consigo. Por isso esqueço-te. Finjo. Porque me dóis, porque me és urgente e eu não posso saber de ti. Sei demais. Sofremos juntos o mesmo adeus.

Tira-me daqui.
Posto isto surges e afinal és tudo ainda.
Vai.
Por favor.

2 comentários:

Chris disse...

A dor lembra-nos que estamos vivos.
Que a vida te sorria daqui para a frente (:

Beijo força!

Vida disse...

adorei :D